Craftos Pine, prólogo

Me mantive sentada desde o momento em que aquela senhora de cabelos tingidos de loiro se levantou para entrar na sala de seus exames até o momento, onde me encontro fazendo exatamente nada além de descansar minhas pernas batendo com meu celular contra a palma de minha mão esquerda. Já havia folheado os mesmos minúsculos livros mais de uma vez, mas para ser sincera eu não me interesso em saber sobre como exames Raio-X, Tomografia e semelhantes funcionam. Principalmente desde que campanhas de prevenção a diversas doenças começaram nesta cidade, sendo obrigada a ver todos os dias na televisão avisos sobre prazos e animações mostrando como eram os exames que pediam. 

Claro que era tudo mentira dos líderes daqui e eu sabia bem disso por minha proximidade com um deles. Tudo o que querem com isto é descobrir onde aqueles que não são tão humanos como pensamos estão escondidos.

Meus olhos passaram então a visitar os diversos avisos colados nas paredes brancas, vários deles pediam silêncios com frases, imagens e com a simples sentença "Silêncio!" destacada em vermelho. Outros avisos acima de portas acinzentadas, estas que possuíam um pequeno visor redondo de tamanho médio que me permitia espiar caso demorasse mais do que o normal, diziam claramente para não usar telefones celulares e os manter desligados naquela parte do hospital. Tudo que conseguia pensar era o quão inúteis eles eram, afinal, era só bater o olho na pessoa ao lado para vê-la com um celular nas mãos mandando mensagens e ainda ouvindo musica em seu fone de ouvido. 

"Parabéns, Craftos Pine. Seus avisos são cada vez menos respeitados, espero pelo momento que vão ignorar totalmente suas leis e virarem isso daqui de pernas 'pro ar" Pensei, balançando minha cabeça enquanto tentava conter a risada desnecessária que se formou ao imaginar a cara dos seguranças sobrenaturais de Craftos ao verem um motim dos lobos, felinos, raposas e outros. 

Comecei a olhar novamente um dos folhetos, me distraindo ao imaginar passar por aqueles exames citados. Mas, um arrepio estranho tomou conta do meu ser... Aquela estranha sensação de quando alguém diferente se aproximava estava mais forte do que nunca. Olhei ao meu redor, mas as pessoas continuavam as mesmas em suas vidas sem nem ao menos notarem minha presença. Me levantei, caminhando para o fim do corredor onde a luz parecia estar cada vez mais fraca.

— O que...? — Perguntei ao me virar após ouvir passos atrás de mim. O corredor estava coberto pela escuridão e só existia um foco de luz focado em onde eu estava. — Seja lá quem esteja fazendo isso, eu exijo que pare! — Gritei, minha voz estava trêmula e meu coração palpitava, mas ainda tentava manter uma pose que pudesse dar o mínimo de receio em alguém. O medo tomou conta de mim quando comecei a imaginar meus pesadelos se tornando reais.

— Se acalme, criança. — Ouvi uma voz forte, feminina e conhecida atrás de mim. 

Me virei rapidamente podendo encarar uma mulher de feições conhecidas, mas pouco eu podia ver do seu rosto por conta da luz fraca. Sua pele pálida se destacava, junto com seus olhos esverdeados, e seus cabelos lisos, longos e dourados também eram bastante visíveis. Ela tinha minha altura e vestia roupas normais: uma blusa de manga curta azul, uma jaqueta que deveria ser preta e uma calça que provavelmente tinha a mesma cor que a jaqueta.

— Você... O que faz aqui? — Perguntei, meu tom já estava firme novamente e o medo que tanto me consumiu por alguns segundos já havia passado completamente. Um certo alivio tomou conta de mim, afinal, ela sempre demonstrou ser de confiança.

— Eu disse que voltaria para te dizer o que prometi, não disse? 

— Agora irá falar? Após dois séculos sem aparecer ou dar algum sinal me forçando a viver uma mentira?  

— Se acalme, criança ou não poderei lhe contar o que tanto quer saber. 

— Tudo bem — Respirei fundo, me recompondo. — Agora diga tudo o que tem a dizer.

— Acredito que se lembre do que eu lhe disse anos atrás, não se lembra? — Apenas balancei a cabeça em sinal positivo e ela deu dois passos para frente. — Craftos Pine precisa de você mais do nunca, o futuro dessa cidade e talvez do mundo está nas suas mãos.

— Espere... Eu sou a resposta para os problemas de bilhões de pessoas? Obrigada, mas não. — Respondi seca, tentando me virar mas ela segurou o meu braço.

— Se te serve de estimulo, seu marido e filha precisam de você. 

Aquelas palavras me acertaram como um tiro. Um marido? Uma filha? Como ela pôde ter escondido isso de mim por tanto tempo? Como eu posso tê-los e como podem precisar de mim ainda? "O quê?" Foi o máximo que consegui perguntar... Minha mente estava paralisada assim como todo meu corpo.

— Você tem uma família, linda por sinal, mas precisa largar essa mentira que está vivendo para os ter de volta. — Ela se aproximou, me estendendo um papel branco com um endereço escrito em caneta preta. — Procure por James, ele saberá como te guiar. Se quiser, vá com aquela sua amiga.

Eu tentei falar mais alguma coisa, mas acordei de supetão na mesma cadeira do hospital. As pessoas estavam como antes sem esboçar nenhuma outra reação além de risadas com suas conversas no aparelho celular. Algumas haviam sumido, provavelmente foram embora com as pessoas que vieram acompanhar ou entraram para os exames. Encarei minha mão e lá estava o papel com o endereço. Bom, eu tinha algumas coisas a pensar e analisar, como por exemplo: por que nunca me falaram sobre essa família? Por que nunca me procuraram? Ou será que tentaram, mas não me acharam por eu ser praticamente refém de um cara louco? Quantos anos será que minha filha deve ter? Talvez ela nem se lembre de mim e o meu marido, se é que ele ainda pode ser chamado assim, será que ele pensa que estou morta e seguiu em frente? Não o culparei caso tenha feito afinal, eu sumi por duzentos anos.

"Só descobrirá quando ir atrás desse tal de James" foi o que pensei, dobrando o pedaço de papel e o guardando no bolso de meu casaco preto. Decidi que esperaria o meu turno com a senhora Frangipane acabar e iria ligar para Trinity, iria acompanhada dela até esse homem.  

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